REFLEXÃO DE CARNAVAL by Nívea Ferraz
Esse ano nem quis saber de Carnaval. Pra quem tinha planos de até desfilar em escola de samba, meu Carnaval foi dos mais chochos. Aliás, não fui só eu que brochei na hora “H”; minha amiga e sócia neste espaço virtual, ao que me consta, também resolveu ficar longe da folia e pertinho da cama, rs. Carnaval sonolento esse nosso, hein minha amiga?
Pois bem, mas se o corpo descansou, a mente não parou; aproveitei pra ficar na minha toquinha, e pra não dizer que não saí, peguei uma prainha na terça, e mesmo assim, fui no carrinho do papai; e pensei, pensei, pensei. Pensei no meu atual problema amoroso, pensei no aquecimento global, e acima de tudo, pensei na violência que assola esse país, mais especificamente, no caso do pequeno João Hélio, que me chocou profundamente. A violência a pessoas indefesas, como crianças e idosos, me abala pessoalmente, por ter vivido um drama como esse na minha própria família, há uns três anos atrás. Como ser humano, passional que sou, minha primeira reação foi sentir muita raiva dos monstros que martirizaram o menino. Confesso que num primeiro instante pensei que eles deveriam morrer, de forma brutal e dolorosa... mais tarde, menos envolvida pela emoção, defendi a prisão perpétua para os assassinos; nem foi por bondade de minha pessoa (longe que estou de ser alguém verdadeiramente bom), ou pela minha crença religiosa ( eu sou espírita, e os espíritas são terminantemente contrários à pena de morte, assim como a eutanásia, o aborto e o suicídio); foi simplesmente porque concluí que a morte não é, por si só, castigo pra ninguém.
Durante esse tempo, ouvi muitas opiniões que discordei, algumas considerei imaturas e outras hipócritas. Ouvi muita gente dizer que o problema era social, e até defender os pobres coitados dos marginais(!!!). Confesso que fiquei bastante irritada. Esse determinismo sócio-econômico é profundamente irritante. É claro que no nosso país existe um abismo social gigantesco, que arrasta toda uma massa de jovens sem perspectiva para o mundo da criminalidade. Mas crimes hediondos como esse não são cometidos apenas por pobres marginalizados pela sociedade. E a maioria das pessoas pobres são dignas, não cometem crimes. Acho que explicar a maldade humana somente por esse ângulo denota, no mínimo, ingenuidade. O ser humano NÃO é simplesmente um ser social; temos sim uma dimensão biológica, uma psicológica, e também uma dimensão espiritual.
Outra que eu ouvi, e que não posso deixar de comentar: crimes bárbaros contra crianças, inocentes de uma forma geral, ocorrem todos os dias nas nossas favelas; crianças africanas morrem diariamente de fome. Sim, isso é um fato, terrível, diga-se de passagem. Deveríamos ser mais sensíveis e menos alienados dessa realidade. Mas não podemos, não devemos e nem conseguimos deixar de nos comover com esse caso que ganhou destaque na mídia. Se podemos dizer que essa tragédia “serviu” para alguma coisa, foi justamente para nos fazer enxergar que existem outros Joões, pretos, brancos, ricos, pobres...
Certamente o caso do João mexeu mais fortemente com as nossas emoções por ser ele um menino da classe média carioca, que poderia muito bem ser um filho, irmão, primo, meu ou seu... a gente sempre se sente mais tocado quando a tragédia está próxima de nós, não dá pra negar. A dor é mais profunda quando acontece com um dos nossos. Dizer o contrário é hipocrisia, afinal, estamos ainda longe da angelitude; não somos seres sublimes, capazes de amar a tudo e a todos igual e irrestritamente.
A verdade é que todos os dias, em todo o mundo, milhares de inocentes são martirizados e ninguém se dá conta disso. O pequeno João foi, infelizmente, um Cristozinho que nos fez acordar, ainda que momentaneamente. O mais triste é saber que ele não foi o primeiro, e também não será o último.
(RJ, 28/02/07)
Pois bem, mas se o corpo descansou, a mente não parou; aproveitei pra ficar na minha toquinha, e pra não dizer que não saí, peguei uma prainha na terça, e mesmo assim, fui no carrinho do papai; e pensei, pensei, pensei. Pensei no meu atual problema amoroso, pensei no aquecimento global, e acima de tudo, pensei na violência que assola esse país, mais especificamente, no caso do pequeno João Hélio, que me chocou profundamente. A violência a pessoas indefesas, como crianças e idosos, me abala pessoalmente, por ter vivido um drama como esse na minha própria família, há uns três anos atrás. Como ser humano, passional que sou, minha primeira reação foi sentir muita raiva dos monstros que martirizaram o menino. Confesso que num primeiro instante pensei que eles deveriam morrer, de forma brutal e dolorosa... mais tarde, menos envolvida pela emoção, defendi a prisão perpétua para os assassinos; nem foi por bondade de minha pessoa (longe que estou de ser alguém verdadeiramente bom), ou pela minha crença religiosa ( eu sou espírita, e os espíritas são terminantemente contrários à pena de morte, assim como a eutanásia, o aborto e o suicídio); foi simplesmente porque concluí que a morte não é, por si só, castigo pra ninguém.
Durante esse tempo, ouvi muitas opiniões que discordei, algumas considerei imaturas e outras hipócritas. Ouvi muita gente dizer que o problema era social, e até defender os pobres coitados dos marginais(!!!). Confesso que fiquei bastante irritada. Esse determinismo sócio-econômico é profundamente irritante. É claro que no nosso país existe um abismo social gigantesco, que arrasta toda uma massa de jovens sem perspectiva para o mundo da criminalidade. Mas crimes hediondos como esse não são cometidos apenas por pobres marginalizados pela sociedade. E a maioria das pessoas pobres são dignas, não cometem crimes. Acho que explicar a maldade humana somente por esse ângulo denota, no mínimo, ingenuidade. O ser humano NÃO é simplesmente um ser social; temos sim uma dimensão biológica, uma psicológica, e também uma dimensão espiritual.
Outra que eu ouvi, e que não posso deixar de comentar: crimes bárbaros contra crianças, inocentes de uma forma geral, ocorrem todos os dias nas nossas favelas; crianças africanas morrem diariamente de fome. Sim, isso é um fato, terrível, diga-se de passagem. Deveríamos ser mais sensíveis e menos alienados dessa realidade. Mas não podemos, não devemos e nem conseguimos deixar de nos comover com esse caso que ganhou destaque na mídia. Se podemos dizer que essa tragédia “serviu” para alguma coisa, foi justamente para nos fazer enxergar que existem outros Joões, pretos, brancos, ricos, pobres...
Certamente o caso do João mexeu mais fortemente com as nossas emoções por ser ele um menino da classe média carioca, que poderia muito bem ser um filho, irmão, primo, meu ou seu... a gente sempre se sente mais tocado quando a tragédia está próxima de nós, não dá pra negar. A dor é mais profunda quando acontece com um dos nossos. Dizer o contrário é hipocrisia, afinal, estamos ainda longe da angelitude; não somos seres sublimes, capazes de amar a tudo e a todos igual e irrestritamente.
A verdade é que todos os dias, em todo o mundo, milhares de inocentes são martirizados e ninguém se dá conta disso. O pequeno João foi, infelizmente, um Cristozinho que nos fez acordar, ainda que momentaneamente. O mais triste é saber que ele não foi o primeiro, e também não será o último.
(RJ, 28/02/07)
