THELMA E LOUISE - ABAIXO DOS TRÓPICOS

Um blog de duas doidas...

14.11.06

"FUTURÍVEL (*)" - By Nívea Maria

Hoje de manhã, no trem, eu estava lendo a entrevista do cientista americano Raymond Kurzweil nas páginas amarelas da Veja. Ele é um entusiasta desse futuro cibernético que se anuncia. Eu confesso que senti arrepios só de ler o título ("Seremos todos cyborgs"); uma pessoa um tanto avessa à tecnologia e ligada às humanidades como eu tem, no mínimo, certa aversão a esses "futurismos". Mas resolvi vencer o embrulho no estômago, engoli a seco e segui em frente na minha leitura matinal.
Kurzweil prevê que, num futuro bem próximo, homens e máquinas se fundirão. Segundo ele, muito em breve a inteligência artificial superará a inteligência humana; o homem acoplará essa inteligência artificial à sua, ampliando assim a sua própria capacidade intelectiva. Seremos então, meio homens, meio máquinas. Minha primeira sensação foi de horror; mas percebi que não posso me esquivar de pensar que essa nova humanidade será uma realidade, e talvez dentro de pouco tempo. Se pensarmos que já estamos criando membros artificiais, que cardíacos vivem com marcapassos dentro do peito, que a medicina estética vem desenvolvendo e esculpindo novas "formas" humanas, podemos dizer que esse futuro já começou.
O que de fato me incomoda é o aparente reducionismo com que esses homens de ciência parecem tratar a condição humana. Se nos tempos de Darwin, Freud e tantos outros, o homem era um ser predominantemente biológico, nesses novos tempos, o homem é um ser tecnológico; parece estar se metamorfoseando na sua criação, as máquinas. Tento vislumbrar esse mundo novo apresentado pelo dr. Kurzweil, e fico me questionando: estará a criatura evoluindo em direção ao criador, ou será que o criador estará se rebaixando à sua própria criação? Acho que ambas as questões fazem sentido. Porém, mais estranho que imaginar que as máquinas podem ser mais inteligentes que os homens é constatar que nós estamos nos assemelhando cada vez mais a autômatos... se pensarmos no consumismo irracional que rege o comportamento das pessoas em nossa sociedade, vemos o quão maquinais estão os homens e suas relações. O triste é que essa "filosofia" consumista transcende as nossas relações com os objetos. Estamos sendo consumistas em nossas relações pessoais e até em nossas crenças.
Mas o que me consola é que tudo tem um limite. E o consumismo terá o seu, creio nisso. O planeta já não o suporta. Seremos obrigados a mudar nossos hábitos, nosso modo de viver, teremos que readaptar nossas necessidades materiais a uma nova realidade, por questão de sobrevivência; ou então estaremos extintos do planeta dentro de poucos séculos. Defendo aqui uma espécie de renascimento, um novo humanismo, menos hedonista, materialista, e mais espiritualista. O desenvolvimento da inteligência artificial provocará uma "crise de identidade", fazendo os homens se voltarem para a questão: qual o verdadeiro sentido de ser Humano? Tenderemos a nos voltar para a filosofia, as artes, a religião, todo esse mundo imponderável, caótico e genuinamente humano de idéias e valores.
Esse novo humanismo não prescinde das necessidades materiais. Não somos (ainda) seres etéreos. Mas elas estarão num plano secundário, no reino do automatismo. Sim, os robôs e as máquinas desempenharão um papel significativo nesse mundo novo, não se pode rejeitar isso... substituirão o homem em muitas de suas tarefas e atividades braçais. Sim, a economia será cada vez mais autônoma, regida pela "mão invisível" de Smith, cada vez menos dependente da política (socialistas e comunistas, torçam o nariz, mas essa é a tendência).
Nesse mundo novo que eu vislumbro a economia e a tecnologia estarão convivendo harmonicamente com a nova humanidade. Sim, porque a humanidade precisa e irá se reinventar. De certa forma, consigo "ver" esse mundo novo. Só ainda não tenho idéia de como será esse homem novo, em toda sua complexidade. Porque uma das principais (pra mim, é a principal) características do ser humano é a imprevisibilidade.
* Nome de uma música do meu querido Gil.

(em 13/11/2006)

3 Comments:

  • At 02:30, Blogger Tricia said…

    Bonito, Nivinha. bem escrito, num tema ótimo. Essa entrevista tbm me deisou mto pensativa, essa semana...

    Espero q haja mesmo harmonia nesse Mundo Novo, q ele seja de alguma forma admirável, principalmente no sentido espiritual. Q esse seu otimismo, q se revela diante das expectativas mais claustrofóbicas, seja um bálsamo, uma fonte de boas energias pro mundo q veremos daqui há alguns anos... Q gere um karma positivo.

    Muitos beijinhos e continue postando. Sou sua fã.

     
  • At 02:33, Blogger Tricia said…

    Ôpa. É Bem com b maiúsculo.

    E deixou, com x.

    Hihihih... Tô mais perfeccionista q a Carol...

     
  • At 00:58, Blogger DUAS DOIDAS said…

    muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito bom, a melhor parte é a última frase... bem a nossa cara, não é nobre colega???

     

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