"PÁGINAS DA VIDA" by Nívea Maria
Parafraseando o Manoel Carlos, grande cronista do cotidiano, porque hoje tive vontade de escrever sobre uma cena que eu vi. Tem algum tempo que eu não presto atenção nas pessoas, de tão encerrada nos meus próprios problemas e nas minhas questões. Desde que me entendo por gente, o meu maior interesse na vida é pelas pessoas. Sou uma fofoqueira nata! Talvez por isso eu tenha me interessado por antropologia, embora hoje saiba que essa não é bem a minha área. O meu interesse pelas pessoas já foi bem maior, hoje estou mais egocentrada. Mas eu lembro que quando era criancinha, costumava observar as pessoas; olhava fixamente para elas; a maioria se sentia incomodada; as crianças davam a língua. Pois bem, estava eu hoje no ponto de ônibus, por volta das 13 horas, em frente ao Teatro Municipal, esperando o meu 393 rápido, quando chega um casalzinho jovem. Na verdade, eu mal tinha visto a menina, quem me chamou a atenção foi o menino, feioso de dar dó, esquisitão mesmo. O cara era alto, magrelo, fazia o tipo metaleiro, com um cabelo grande e louro esquisitíssimo, uma cara comprida, dentuço e cheio de espinhas. Feio como quase todos os moleques de 16 anos, e ainda um pouco mais. Parecia que tinha um ovo na boca. Eu entrei no meu ônibus, eles entraram logo atrás de mim , e sentaram no banco à minha frente. Desde então não pude deixar de presenciar o dramalhão que se encenava naquele instante: Eu estava distraída, pensando na vida, quando vi a menina dando um beijo no moleque feiosinho; mas, para minha surpresa, ele evitou. Fiquei bolada, até cogitei, hm, ele faz o tipo metaleiro mas de repente é viado; porém continuei na minha, olhando para a janela. Mas de vez em quando a curiosidade batia e eu dava uma espichada. Eles estavam calados, aquele climão; a menina estava virada para a janela, e eu vi que havia uma lágrima no rosto dela. Pronto, fiquei logo penalizada, me condolescendo com a garota... coitadinha, foi rejeitada, isso é terrível, sei bem como é... poxa, como um mocreiúdo daqueles pode rejeitar a menina???Rsssss... verdade, pensei bem assim... comecei a entrar no drama: será que eles já são namorados e ele quis terminar o relacionamento, ou será que ela pretendia iniciar o relacionamento, mas ele deu no pé? Fiquei com a segunda hipótese; pensei no quanto os homens podem ser covardes, não assumindo seus sentimentos, sempre durões, sempre orgulhosos... bateu o lado feminista: os homens são maus! Rsss! Comecei a lembrar de algumas situações que eu vivi, um pouco similares... estava já quase esquecendo o drama principal e adentrando no meu mundinho interior, quando voltei à realidade, ouvindo os soluços da garota. Gente, ela começou a chorar convulsivamente, tadinha!!! Eu morri de pena. O feiosinho, a princípio, ficou imóvel, o que me criou certa indignação; poxa, nem pra dar um abraço, dizer um sinto muito. Ficou caladinho. Além de mocreiúdo, não tem coração!!! E ela não parava de chorar. Nesse momento, o ônibus inteiro estava de olho no casalzinho. Acho que no fundo quase todo mundo estava pensando exatamente como eu: como é que o feioso pode dar o fora na moreninha? Ela até que era bonitinha, principalmente perto dele. Também fazia o estilo roqueirinha, cabelão preto olhos pintados de preto, um pouco cheinha. Devia ter uns 15 anos, maior carinha de criança. E eu morrendo de pena dela... coitadinha, tão novinha e já sofrendo por amor!!! Nesse momento, eu comecei a falar mentalmente com a garota: que é isso, minha filha? Pare de chorar na frente dele!!! Não seja tão carente, não se faça de fraca!!! Você pode conseguir alguém melhor que esse mocreiúdo... e enquanto isso, a menina se aninhava no colo do seu amado, e no fim ele teve que abraçá-la. Ficaram um tempo assim, e eu voltei a me distrair com a viagem, lembrei que eu preciso estudar pra minha prova de libras, e comecei a cogitar sobre uma graduação, um politécnico desses aí da Estácio em libras. Não sou lá grandes coisas, mas se tiver força de vontade eu aprendo. E isso certamente é um diferencial. Inclusão social é algo que as empresas estão valorizando, e (glória a Deus!) é uma tendencia da sociedade moderna. Acho que pode ser um caminho pra mim, que sempre me senti atraída pelos "fracos e oprimidos". Estava distraída, quando lembrei novamente do casalzinho, e vi que os dois estavam se beijando. Ai, que bonitinho! Nossa amiga venceu!!!! Amoleceu o coração do feioso. Só faltava a platéia aplaudir, rsss... acho que o choro convulsivo de nossa amiguinha foi fundamental. Com toda a dramaticidade típica das adolescentes apaixonadas, ela abriu seu coração (e abriu o berreiro!), se expôs, e conseguiu conquistar o seu amado. Pode até ter sido pela insistência, mas eu bem acho que ele também gostava dela, só estava com medo de reconhecer, comportamento tipicamente masculino. Assim como a mocinha, eu também já me declarei, e já levei o fora, algumas vezes. Mas não tive a humildade dela de mostrar toda a minha tristeza, assim, de uma forma tão contundente. Humildade é algo que as mulheres, de um modo geral têm, o orgulho está mais ligado ao comportamento masculino. É por isso que eu acho que fui homem na encarnação passada; sou orgulhosa demais... Agora eles estavam conversando animadamente, ela estava bastante risonha. Quando os dois desceram, o ônibus inteiro os acompanhou com os olhos. Acho que quase ninguém ficou indiferente àquele drama juvenil que teve um final feliz. A impressão que tive é que eles encenaram uma peça, um estória romantica, com muito sofrimento, mas onde no fim o amor venceu.
Em 06/11/2006
Em 06/11/2006

3 Comments:
At 21:02,
Tricia said…
Que fofinho o primeiro post grande!
Lindo Nivinha!
Aguardamos agora um post tipo testamento da Manu... Hehehe!
At 14:06,
Anônimo said…
mto bom!!!!
sou fã d cronicas, tenho livros e livros!!!
mto bom sua descriçao, amiga escritora!@
quero mais, quero mais!
e sugiro um blog maior, com todos os nossos amigos se revezando em posts e mostrando o q pensanm... q pensam?
bjooooooo!
At 23:37,
Anônimo said…
olha, já está o frank bento aqui querendo entrar aqui no nosso negócio hein!! rsrsrs...
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